segunda-feira, 26 de março de 2012

Primavera do Sul e Inverno Nortenho


Svetrlyu Krissmas kçe Panketrlabiellatualztli

Feliz Festival das Bandeiras e Boas Festas Nacionais!
Basicamente era o que estava escrito no dialecto Bellante Padrão, no dialecto Bellante do Norte, no dialecto Tienense (uma variedade do Japonês), em Inglês, em Russo, e em Alemão, numa tinta dourada num fundo azul-escuro, em três faixas que decoravam um portão de alabastro que costumava ser usado como um antigo torii , retirado de uma cidade antiga do Norte.
O Festival das Bandeiras é também uma maneira da minoria Cristã festejar o Natal no Império Bellante. No refinado e luxuoso salão barroco, com uma iluminação toda ela a óleo e a velas, o ambiente era deveras gótico. Uma música de fundo - esta tocada por músicos com amplificadores - era tipicamente Bellante, com uns instrumentos das mais variadas origens.
No meio de cada janela comprida e clássica, em forma de arco (quase a imitar as antigas janelas dos palácios dos sultões na Índia) havía uma estátua a representar uma das inúmeras Imperatrizes que a Bellanária teve, todas elas esculpidas como mulheres extremamente belas, tal como as estátuas Gregas de um templo. No entanto, os artistas tinham decidido por manter a beleza original de cada uma da nacionalidade e época da etnia reinante. Começava pela estátua de Melnjar I, e ía até Swerdinada Eudóxia Patrícia Di Neptunus, a mãe da Serpente de Fogo. Quase no fim, havía uma mulher com uma placa a dizer:

Nilampadma II Jagannhati, filha do Rei dos Dragões Jagannhata XXII com a Imperatriz Claudinitiana Xóchitl III. Mãe do Imperador Tsubasa Kleitsuitl. Nascida em 24 de Março de 1720 e morreu em 2 de Janeiro de 1769, cada com Ayumu Tokugawa.

Era a tetra-avó da Serpente de Fogo. Talvez seja por isso que ela tenha aquele longo cabelo negro. Portanto, pelo que eu percebi, era muito raro haver filhos na antiga Corte Imperial Bellante, e se os houvesse, o poder era automaticamente dado à filha mais velha. Para uma sociedade muito machista, isso é um bocado esquisito. Bom, se calhar os Bellantes tinham aprendido que só uma mulher conseguiria controlar a sede de sangue humano dos Deuses pelos seus antepassados meso-americanos. Pelo que sei sobre a longa Dinastia Di Neptunus - que, segundo dizem começou desde os princípios da fundação das Ilhas Bellantes - Swerdinada II Eudóxia Patrícia Di Neptunus tinha antepassados Nahualli, Gregos, dos Naga, Japoneses, Russos e até Alemães!
Os Bellantes - pelo menos a maioria - acredita no Shamanismo e no Espiritismo. Ou seja, nós acreditamos nos espíritos que vivem na Natureza e em fantasmas. Tanto nos palácios e templos do sul, como nos castelos do norte da Grande Ilha, é normal verem-se estátuas dos antepassados mais célebres...quer eles tenham sido bondosos ou crúeis para com a sua gente.
Quando reparei que haviam mais estátuas, desta vez, de homens, fiquei espantada. Os Imperadores eram mais altos - ou tinham sido esculpidos numa escala maior que o das Imperatrizes - que as suas respectivas esposas. Os rostos eram normalmente mais severos do que os das mulheres. Cada um usava uma lança ou uma espada à cintura, e com uma posição quase militarística, até parecía que estavam a proteger as Imperatrizes.
Como não podía deixar de ser, o salão tinha o brasão Imperial com o Dragão Japonês e o Jaguar Azteca em cada uma das longas cortinas vermelhas e azuis-esuras. Aposto que o dragão Japonês era dourado na cortina vermelha e o jaguar era prateado no fundo azul das outras cortinas. Se pensas que isto só apareceu a partir do reinado da Serpente de Fogo, enganas-te redondamente...os Bellantes sempre se orgulharam da sua aliança com os Japoneses, desde os princípios do século doze.
O Festival das Bandeiras é um pouco ambíguo: de uma forma, festeja a Independência Bellante, e ao mesmo tempo, há vários símbolos de outros países em cada uma das regiões e ilhas... No entanto, todos os Deuses, Feiticeiros Brancos, Fadas, e outras tantas personalidades importantes estavam presentes em Suryadevnahutbal.
O ambiente era festivo, e sobre a luz do luar e das velas, todos riam-se, todos dançavam, e todos cantavam ao ritmo da música alegre e patriótica no Bellante padrão da Cidade dos Deuses.

Aí vem o Avô Inverno, com o seu sotaque exótico,

Com as suas luvas de gelo, ele abre o pórtico
Para as flores de pessegueiro,
Para as camélias, vermelhas com o meu guerreiro...

Querida terra coberta do branco,

Como estás bela hoje no teu aveludado manto,
Oferecido pelo deus das nevadas,
És um país cheio de donzelas encantadas!

O senhor Inverno, como bom feiticeiro educado,

Avisa sempre o dia e a hora da sua chegada,
E a Bellanária recebe-o, qual dama amada,
Que estranho casal este, nunca se viu no mundo civilizado!

E ela suspira quando ele lhe diz:

Querida terra coberta do branco,

Como estás bela hoje no teu aveludado manto,
Oferecido pelo deus das nevadas,
És um país cheio de donzelas encantadas!

O Avô Inverno

Está a sempre a mudar de lugar
É um viajante eterno,
Que nunca nos deixa de espantar,
Com o seu vento que gela até o Inferno!

Mas é da Bellanária que ele gosta mais,

Menina jovem, ladina, nunca teve pais,
Ela gosta muito de brincar,
Querida criança decorada com fitas azuis a imitar o mar,
Se alguma vez ela pudesse amar...!

E o Senhor Inverno lhe diria:

Querida terra coberta de branco,

Como estás bela hoje no teu aveludado manto,
Oferecido pelo deus das nevadas,
És um país de donzelas encantadas!

Quando passeei, um pouco distraída em direcção ao fundo do salão, reparei que a voz com sotaque Russo era a de Nina Malaghetyeva, a nona filha de Kasimir Malaghetyev. O rufo dos tambores era contagiante, e em breve, tanto eu, como a Sara, a Nuo, a Tsuna, e a Sumitraijin estávamos a dançar ao ritmo da canção alegre! Os Deuses estavam a envergar - só eles é que eram permitidos usar aquelas cores vistosas no Festival das Bandeiras - túnicas cobertas de plumas coloridas, que iam desde o vermelho até à opala brilhante, o verde esmeralda, o azul-escuro e o prateado. A típica música Bellante, exótica, quente, tão picante quanto o molho de piri-piri tropical das Ilhas de Shunrasen que os seus habitantes põem nas tortilhas, era maravilhosa e milenar...!

Deve ser por isso que a Senhora Bilafassabnsair (ou a própria Bellanária) é representada como uma jovem exuberante de longos cabelos negros, com um toucado de penas de quétzal verdes e perfumados de várias flores, com um xaile cor-de-rosa a cobrir-lhe dois terços dos seios avantajados e uma saia comprida, justa e dourada (como símbolo das temperaturas quentes das ilhas do Sul). No Festival das Bandeiras, ela é acompanhada pelo "Avô Inverno", o "Senhor Inverno", ou simplesmente "deus das nevadas", um homem de aspecto Japonês (ou pelo menos que se assemelha a um homem estrangeiro, de meia-idade, alto, sisudo e pálido...mais concrectamente, a um bruxo). Algumas vezes é a própria figura do Mestre Rwebertan Samiel Di Euncätzio que personifica o Norte e o Inverno. Há quase dois mil anos, a figura mais parecida com a personificação do Inverno era o antigo Itztlacoliuhqui-Ixquimilli (Ponta Curva de Obsidiana - Olho de Adaga). Com a vinda do Assassino do Amor e do Ded Moroz , este deus acabou por ser esquecido e morrer. No entanto, o Senhor Inverno carrega sempre consigo uma espada curva de obsidiana e a maior parte dos avôs nesta época tentam pôr os olhos mais penetrantes e oblíquos para se assemelharem aos olhos " em forma de adaga" do antigo deus.

Pois é, o Festival das Bandeiras tem muito que se lhe diga... As três figuras centrais são o Senhor Inverno, a Bellanária e a Imperatriz ancestral Melnjar I.

A Sara tinha-me contado, antes de chegarmos ao Suryadevnahutbal, que normalmente no Festival das Bandeiras, a apresentadora está vestida como a Senhora Bilafassabnsair e o anfitrião ou estava a envergar as roupas do Assassino do Amor, ou disfarçado do Senhor Inverno. Bem, a Nina tem um cabelo muito comprido, mas é loura e é também um pouco alta demais para se fazer de Deusa com origens Aztecas. Quanto ao anfitrião, nem sinal dele...!



terça-feira, 20 de março de 2012

Interrogatório entre o pó-de-arroz

A Rainha das Fadas, com um elegante vestido, cruzou os braços, como se estivesse muito desconfiada de que algo de mal pudesse vir a acontecer à pequena Tsuna. Os olhos delapidados e suaves, mas austeros da Senhora Roshini dardejaram para a janela.




- É melhor fecharem aquela janela senão ainda vai acontecer uma desgraça! - Avisou a experiente fada de um metro e cinquenta de altura.




Eu estava completamente aparvalhada: a Tia Charlotte, a Tia Irene e algumas ondinas correram apressadas para a janela e fecharam-na com o trinco. Até parecía que estavam com medo que algum demónio tivesse possuído a minha irmã Tsuna! A Tia Charlotte estava mais branca do que um papel, a Tia Irene até fazía uma careta de quem tinha comido algo estragado, e a Sara, no seu cantinho, a tremer que nem varas verdes.




Um pouco nervosa, a minha tia Chinesa com um metro e setenta soltou um suspiro, muito aliviada. Estava com uma das mãos ainda na fechadura do trinco da grande janela, e a outra no braço da filha. O cenário era no mínimo ridículo. Quer dizer, eu sei que os bruxos costumam ser um pouco perversos, mas nós estávamos no terceiro andar. Duvido que conseguissem ver qualquer coisa de cá dentro.




Arqueei as sobrancelhas, espantada com o facto de que todas as fadas, raparigas humanas, e feiticeiras tinham ficado um pouco perturbadas com aquele episódio esquisitíssimo.




- Bem, se a Tia age assim por causa de um carro fora do prazo desconhecido, nem quero saber como é que é quando aparece o Lao lá em casa... - Comentei, ao tirar os sapatos de salto-alto, cansada. - Vou tomar um banho.

De repente reparei que a Rainha das Fadas, como se fosse uma senhora daquelas actrizes Chinesas que vemos nos filmes Bellantes - que, para tua informação, são a maior seca do mundo, sem contar com o facto de que eu só percebo metade do que eles dizem em Bellante do Norte - dos decadentes e poeirentos cinemas em Shunamari , estava a agarrar-me. Até parecía a que fazía de mãe da Elizabeth Montgomery no Bewitched . As únicas diferenças são: a Senhora Roshini não tem um ar nada excêntrico de mulher Americana e de bruxa muito menos! É só porque ela estava a olhar-me com uma cara de quem conseguía ler-me os pensamentos. Hey, não comeces a gozar, a dizer que eu sou cota e não sei que mais!
É só porque o meu avô - sabe-se lá como - tinha gravado os episódios todos a preto e branco da série original dos Anos 50 - e aos sábados, costumava arrastar-me só para eu vê-los com ele. Eu cá nunca achei lá muita piada a sitcoms Americanas. Não têm imaginação nenhuma e a política do "nonsense" na série estava com uns efeitos especiais tão foleiros que eu prefería mais ver uma repetição do 'Allo 'Allo do que ter de aturar aquele sotaquezinho à Americana. A única série que eu achava muita piada era o Twilight Zone . Algumas vezes até penso que vou acordar e o Rod Sterling vai aparecer e dizer com aquela voz sinistra: "Ela está presa no Twilight Zone..." Mas não, a única coisa que ouço é o toque " poison" do Alice Cooper no meu telemóvel como despertador.
A sério, porque, com tanta magia e tanto mistério e tanto militarismo, bem podiam fazer da minha na Bellanária uma daquelas séries foleiras que só dá à meia-noite, para os miúdos não verem, com bola vermelha e tudo.
É por estas e por outras que eu fico admirada: como é que alguém como a Sra. Irene Plah pode ter permitido que a minha mãe adoptasse a pobre coitada da Tsuna?! A Tsuna, ultimamente tem tido a mania de pôr no siemens dela o toque do D'artacão às sete da manhã. É irritante, para uma rapariga como eu que prefere os Black Sabbath ou os Iron Maiden como despertador...sinceramente, qualquer dia perco a cabeça e ainda arrombo a porta e grito a altos-pulmões: "Porque é que não desligas essa porcaria?! Estou a tentar dormir! " A Tsuna, música ocidental ela só gosta das Spice Girls (devíam chamar-se as Raparigas da Merda) e da Britney Spears ...com tanto mau-gosto, não sei aonde é que as orelhas da Tsunazinha vão parar.
Enfim...como eu estava a dizer, a Rainha das Fadas estava a prender o meu braço com uma das mãos, enquanto que olhava para mim como se eu fosse uma das dançarinas do "Survivor" da Beyoncé.
- Tu...tu és como uma irmã mais velha para a Tsuna...como é que tu deixaste que ela ficasse assim, nas garras de um louco qualquer?! - Ela exclamou muito irritada.
Tenho de confessar: fiquei muito admirada quando ela falou num Inglês fluentíssimo. Arqueei as sobrancelhas, com o orgulho ferido evidente nos meus olhos. Não, ela não podía estar a falar comigo! Eu sou a Miss Responsável, eu, que certifico-me sempre que o telemóvel da Menina Tsuna está sempre com a bateria cheia, eu que vejo se ela tem o lanche todo pronto para a escolinha dela!
- Peço imensas desculpas, minha senhora, mas eu não fiz absolutamente nada de mal para que a Menina Tsuna ficasse assim! Se ela dá conversa a estranhos, a culpa é dela, não minha... - Mordi os lábios, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, quase numa forma disfarçada de mostrar que estava envergonhada. Tinha metido a pata na poça!
A Tia Irene arregalou os olhos, ainda mais irritada do que a própria Senhora Roshini. Apontou com a unha envernizada para mim, como se fosse uma advogada de acusação, mas ao mesmo tempo, a tremer, como se estivesse na Oprah Show:
- A culpa é toda tua, minha menina! Por tua culpa, a minha filhinha está naquele estado...
- Mas que raio é que a minha filha te fez para ficares toda lixada, Irene?! - Exclamou a minha mãe, que até parecía uma mártir, com uma das mãos pintadas com verniz vermelho para o peito.
A Tia Irene esboçou um sorriso sarcástico, enquanto ainda abraçava a filha com um ar extremamente protector.
- Ah, pois claro, quando se trata de defenderes os teus interesses, lábia não te falta, não é Katharina?
- Vais bater, é Irene? Sim, porque nem que um raio me caísse em cima da minha cabecinha linda é que eu deixava que tocasses num único fio de cabelo da minha filha! - A minha mãe quase que arranhava as portas dos cubículos onde estavam os chuveiros.
- Não me provoques, Katharina! - Cuspiu a Tia Irene, que já estava a começar a ficar farta do tom falso que a irmã falava com ela.
De imediato, a Mãe, como é habitual nela (nisso ela e a Serpente de Fogo são iguaizinhas) ficou fora de si.
- Chinesa imunda! - A minha mãe estava toda vermelha, ao gritar em Japonês aquelas mesmíssimas palavras.
E, surpreendentemente, a Tia Irene ficou tão irritada que atirou-se à minha mãe como se fosse uma leoa furiosa a tentar proteger as crias.
- Eu vou-te arrancar essas verrugas todas à dentada! - Berrou a Tia Irene, já com o cabelo negro todo despenteado.
E eu ali, no meio daquela algazarra toda, um pouco embaraçada pelo facto de que as mulheres na minha família eram assim. Palavra que nunca me chateei assim tanto...Será que sou adoptada, como a Tsuna? Pensei, ao levantar um pouco os bordos da saia curta do meu vestido, enquanto olhava com um ar de quem não quer a coisa, para o meu pulso. Não, infelizmente, eu sou tão Von Tifon como a tia Charlotte e a Mãe. Ainda tinha aquela tatuagem no pulso.
Tentei fugir daquela confusão, e dei com a Tsuna, que estava a secar (ainda!) o cabelo lustroso e negro. A imagem reflectida daqueles olhinhos castanhos era tão triste como uma ovelha perdida.
Algumas vezes pergunto-me quem é que teve a ideia peregrina de lhe pôr um nome daqueles, tão infantil e amenininado.
Debruçei-me na borda da banca e lancei-lhe um sorriso:
- Tsuna...tu chamas-te mesmo assim?
Sem que eu desse por isso, ela já se estava a rir.
- Claro que não! Onde é que já se viu uma rapariga chamar-se assim? - Exclamou ela, com uma maturidade estranha para uma miúda de treze anos. - Não, o meu nome completo é Tsukiko Nuan Von Zaubermann...
Revirei os olhos, muito admirada. Nunca imaginara que a Tsuna também tivesse descendência Alemã, mas enfim, o mundo é mesmo pequeno...
- Para uma Chinesa, tens um nome muito multicultural...
- Por favor, Jessica, não digas à Mamã que eu disse-te isto... - Ela corou, muito envergonhada, num fiozinho de voz. - Ela não gosta lá muito que eu fale sobre o meu pai.
Agora estava curiosa...O que é que a Tia Irene (que não é realmente minha tia, mas bem que podía ser) andará a esconder que seja assim tão importante ao ponto de fazer com que a filha diga que o nome dela é Tsuna?! Bom, de qualquer maneira, já me habituei tantas vezes a chamar-lhe de Tsuna que não é agora que vou começar a tratar-lhe por Tsukiko Nuan Von Zaubermann. Contudo, já estava mais que pronta para ir para o salão de baile. Mas eu tenho um bicho-carpinteiro para o mexerico: chamem-me o que quiserem, por mim, acho que era mais preocupação do que meter o bedelho aonde não sou chamada.
Olhei-a conspicuamente.
- Estás com um ar de quem quer contar-me mais alguma coisa... Diz lá, eu não vou ficar passada dos carretos. - Disse, com um ar de quem era mesmo a irmã mais velha dela.
Cabisbaixa, a Tsuna soltou um suspiro, digno daquelas rapariguinhas que se vê nos mesmos filmes antigos Chineses, mas que são todas muito bonitas.
- Não gosto que a Mamã e que a tua Mãe andem a discutir...A culpa é minha por ter sido raptada e de mais ninguém. - Murmurou ela, com pena de si própria.
- Que dizes? A culpa é minha, Tsuna, que sou uma despassarada... - Tentei animá-la, mas nem com o meu riso forçado e embaraçoso ela sorriu. - O que é que se passa?
- Bom... lembras-te daquela noite em que eu só voltei de madrugada e a Imperatriz deu-me um sermão enorme? - Disse ela muito envergonhada.
Acenei com a cabeça, ansiosa por saber mais. Afinal de contas, tratava-se da segurança da minha irmãzinha, e eu também quería saber o que é que se tinha passado para ela voltar como se tivesse ido para sítios que meninas tão pequenas como ela não devem frequentar. Tinha sido há coisa de um mês, mesmo depois do Dia da Magia Negra, quando eu estava muito atarefada com os testes e sempre que chegava ao Château, punha-me a estudar que nem uma doida.
- Foi numa quinta-feira, não foi? - Fez uma leve pausa, ao encarar-me com um ar inocente.
- Sim, tu tens piscina às quintas. - Respondi pensativa, ao imaginar que tipo de coisas é que tinham acontecido à pobre da Tsuna.
- Eu ía telefonar-te, (tu sabes como aquilo é muito longe, fica perto da Vila Enublada) para chamares o Nälden para me dar boleia. A partir das sete e meia nunca há autocarros para a estação de metro, e lá estava eu, enregelada, perto da paragem de autocarro. Quando estava quase a abrir o guarda-chuva para ir para a estação a pé, uma limusina estacionou de repente.
- Que tipo de limusina? - Perguntei, um pouco admirada. Normalmente, os bruxos nunca vão à Vila Enublada. Aquilo fica no meio dos montes, num vale cheio de arvoredo e com um lago perto.
A Tsuna encolheu os ombros.
- Não conheço marcas de carros, nem coisas dessas. Mas era grande e cinzento, com um motorista à frente.
- Conseguiste ver a cara desse homem? - Falei, desta vez na minha língua materna. Estava um pouco cansada de falar no dialecto Bellante do Norte.
A minha irmãzinha abanou de imediato a cabeça.
- Não, estava muito escuro e ainda por cima com a chuva... Tu sabes que na Vila Enublada não há quase electricidade nenhuma. Eles vivem na idade da pedra! - Exclamou a Tsuna, e ao ouvir o que tinha dito, corou muito embaraçada e pôs a mão na boca. - Não devía ter dito isto. Enfim...
Soltei uma fungadela divertida. Parece que a Tsuna está a aprender comigo a ser mais sincera e a não esconder assim tanto os sentimentos dela. Com as mãos apoiadas no queixo e os cotovelos na banca, até parecía que estávamos a cochichar de "bonzões" daquelas revistas foleiras de adolescentes.
- Esse motorista...ele falou contigo?! - Exclamei, um pouco espantada. - Conseguiste ver pela voz se era novo ou velho?
- Não, havía outro homem no assento de trás, com uma boquilha preta a segurar um cigarro. O que estava sentado atrás tinha a janela aberta e chamou-me com uma voz grave, sabes, daquele tipo de voz que se esperaria de um bruxo Japonês. Fiquei muito arrepiada: ele tratou-me por "Tsuna-chan". De repente, reparei que estava a falar em Inglês com um sotaque Espanhol, e não em Bellante, Alemão ou Japonês. Era o Sr. Fixtanea...
Arregalei os olhos, desconfiada.
- Mas o que é que esse velho sacana quería de ti a essas horas?!
- Nada! Ele só pediu-me para que me aproximasse, e eu fiz isso. - Ela respondeu, ofendida, como se eu estivesse a duvidar da palavra dela. - Depois perguntou-me como é que eu estava, e se precisava de boleia...
Cruzei os braços, um pouco chateada. Mas ela não sabe que é perigoso aceitar boleias de tipos esquisitos, quanto mais um velho bruxo como o Fixtanea?! Lancei-lhe um olhar desaprovador:
- Tu não sabes marcar o número do Palácio das Reuniões no telemóvel? Se fosse a ti e visse esse maluco à noite, ainda por cima com chuva, chamava logo a polícia... - Comentei, num tom mais honesto.
- O Sr. Fixtanea não é nenhum Assassino do Amor, Jessica! - Ela respondeu. Contudo, recuperou de imediato a calma, ao corar, um pouco envergonhada. - Ou pelo menos eu pensava que ele não era... Eu estava sozinha, Jessica...
Enquanto se penteava, a minha irmãzinha olhou para mim, pouco à-vontade para falar daquele assunto e acrescentou:
- Fiquei tão contente com a notícia que aceitei com um sorriso na cara... Entrei no carro, ao pé do Sr. Fixtanea, que olhava para mim como se eu fosse neta dele ou qualquer coisa parecida. Era muito mais comfortável do que estar à chuva! Os assentos de couro vermelhos davam uma sensação quente. Cheirava muito a tabaco amargo e seco, e a única luz que havía era um candeeiro à moda antiga, verde-escuro. O motorista pousou o guarda-chuva nos assentos de frente e pôs uma manta nas minhas pernas, o que me soube muito bem depois de estar ao frio com uma ventania horrível. Com a luz, reparei que este tinha uns olhos negros, e o nariz era fino. Parecía ser do lado da família da Avó Murakami. "Com licença, menina". Disse ele em Japonês, num sotaque da Cidade Perdida. A seguir, voltou para os lugares da frente e fez as mudanças.
Soltei um suspiro, frustrada, ainda com os braços cruzados.
- É uma pena que não conheça ninguém da família do lado da Avó.... - Disse eu. Estava a começar a ficar pelos cabelos com tanto mistério! Percuti com os dedos no braço esquerdo. - E o que é que aconteceu depois disso?
Muito assustada, ela engoliu em seco e confessou, numa voz que traía o seu rosto que tentava a todo o custo não parecer nervosa:
- Não sei...
- Não sabes?! Mas se tu te lembras do que é que aconteceu antes do raio do homem acelerar para Shunamari?! - Exclamei, agora verdadeiramente preocupada.
Tsuna bocejou, um pouco cansada. Não era para menos, já eram dez e meia da noite. Nem sei porque é que a convidei para isto, além disso, ela não é praticamente do tipo de miúda que gosta de quebrar barreiras.
- Só me lembro que estava muito contente e a rir que nem uma perdida, depois, adormeci... Lembro-me também de uma música a altos-berros que quase arrebentava-me os tímpanos. Tipo daquelas que se ouve nas discotecas em Cyborg Town...?
Sem querer a minha Mãe olhou para ela, um pouco apreensiva. Porque é que ela tem sempre de se meter nas nossas conversas? A sério, a minha mãe, com aquele cabelo enorme, felpudo, louro e rebelde (o enorme e rebelde são um pouco das características que herdei daquela bruxa com a manía que é a Marylin Monroe) quase que estava fazer-me sufocar, atrás de mim, como se fosse da minha idade, ou um ano mais nova que eu!
- Se calhar é melhor ires embora, Tsunazinha, esta festa vai ser um pouco pesada...
A Serpente de Fogo, com um ar de quem quería fazer pouco da Tsuna, esboçou um sorriso sarcástico, ao olhar com os seus olhos de sereia fora de prazo:
- Não me digas, Katharina, querida...!
Cá para mim, ela até podía tropeçar nos sapatos de salto-alto cor de diamantes e o pézinho dela se transformar num lindo trambolho!
Mal tive tempo para ruminar sobre o que teria acontecido a Tsuna há um mês atrás, porque uma voz nos altifalantes (provavelmente uma mulher do Norte da Bellanária, com um sotaque Eslavo) anunciou:
- É favor as senhoras convidadas e meninas dirigirem-se ao salão onde o Baile de Gala de Natal terá lugar.
Lá, teríamos de esperar pelo misterioso anfitrião que tivera financiado o imenso e opulento baile de solstício de Inverno....

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Chorão dos Castigos

Poema dedicado à Princesa Anjali Sarvahdinada de Rwebertan Samiel Di Euncätzio. Esta trovi, traduzida do Bellante Arcaico só para vocês, é conhecida como "Chorão dos Castigos"...é um post-mortem, um poema que só foi encontrado e publicado depois da morte do temível Assassino do Amor. Traduzido primeiro do Chinês para o Japonês em 1323, e depois para o Bellante Arcaico do Norte (uma língua morta muito semelhante em fonética e em grafia ao Japonês da altura), o poema é um favorito dos feiticeiros quando cantam ou num tom triste, ou num tom mais alegre, o seu amor às mulheres.

Para compreendermos o poema na sua totalidade: na primeira quintilha (nunca quatro, porque na tradição oriental, quatro era um número de mau-agouro, demonstrando o carácter supersticioso de feiticeiro de Samiel, cinco, tal como o pentagrama) nessa altura, folhas secas - Outono - era um sinónimo para uma mulher de meia-idade, que é exactamente o que o Assassino do Amor se assemelhava quando atingira os mil anos de idade. É uma referência ao Taoísmo e ao princípio feminino e masculino (yin-yang) a influenciar as quatro estações e a passagem da estação - envelhecer.

Na segunda quintilha, desta vez, o Mestre Samiel faz referência ao calendário lunar Bellante. Após o décimo oitavo mês do calendário lunar Bellante, apagavam-se as grandes lareiras que aqueciam as cidades bellantes num período de abstinência conhecido como Nenontemi - cinco dias de azar. Uma ironia ao comparar o número do azar Japonês com o número do azar Bellante - cinco. Mas é também uma metáfora para dizer que o ódio de Samiel pelo Império Bellante pode ser apagado na escuridão dos cinco dias azarentos. Ele está à espera que a Princesa tenha coragem para vir despedir-se dele depois do último mês como ele está prestes a morrer.

A quarta quintilha é um refrão, como se Samiel estivesse à espera que outros pusessem em forma musical o seu poema. O chorão na mitologia Bellante é símbolo de amor proíbido, e Samiel diz que sente-se castigado pelo Amor mas que este tem um doce aroma de paixão - o fruto da paixão - e a sexo.

Na quinta quintilha, o sujeito poético perde todas as estribeiras - como o povo diz - e confessa o desejo que sente pela pessoa amada. Na Bellanária, há uma espécie única de trevos de cor preta e que se assemelham a cabelos anelados. Mas no último verso da quintilha, ele desculpa-se num tom formal a pedir humildemente qualquer coisa....talvez seja só um beijo como diz a terceira quintilha...Ou talvez seja mais alguma coisa, ou seja, o corpo nu da princesa, uma coisa absolutamente escandalosa em pleno século catorze, não só para os Bellantes, como para os Chineses e Japoneses! Não admira que na versão Chinesa traduzida para o público e na versão Japonesa, esteja apenas - "seda pura do teu vestido" (túnica oriental) em vez de "a seda pura do vosso natural vestido" (como a princesa veio ao mundo).

Na sexta quintilha, o Assassino do Amor fala em sangue impuro - sangue que pode não ser Bellante, ou pode não ser humano (um demónio). Ele confessa que nem com a magia dele ele poderá purificar-se. Isto é uma óbvia referência à tradição hindu dos Rhakasas - demónios com olhos vermelhos. Mas Samiel diz que esses olhos azuis (azuis é uma metáfora para mortos, melancólicos, tristes) choram por ela.
Ele sofre tanto que, ao continuar para a sétima quintilha, pensa enforcar-se com a sua própria dor.

A oitava quintilha é uma repetição da quarta... E assim termina o sofrimento de Samiel com o castigo eterno...


Oh, linda princesa,
Não vedes que as folhas deste velho rosto,
Estão a secar? Se ao menos eu pudesse cumprir
A promessa,
De nunca mais vos ferir...

Se eu morrer,
Se o meu ódio se extinguir,
Como a chama do último mês,
A desaparecer de vez,
Até mim podereis vós vir?

Um beijo,
É só isso que vos peço!
Perdoai este bruxo malfazejo,
Perdoai, senão nunca mais cesso,
De chamar pelo vosso doce nome!

Porque será,
Porque será que terei de estar sempre preso,
Ao macabro chorão com perfume a maracujá?
Porque será que sempre que vos vejo,
Penso que saí de mais uma patifaria ileso?


Nos meus braços quero prender-vos,
Quero sentir a seda pura do vosso natural vestido,
Não haverá um momento em que não deixe
De me perder nos amorosos e macios trevos,
Dos vossos cabelos, acetai, minha senhora, este humilde pedido!


Este sangue impuro,
Que corre apenas por vós,
Nem com Magia Proíbida eu curo,
Estes olhos azuis rasgados, gelados,
Não vedes que o sangue que deitam já forma nós?


Nós horríveis de dor,
Que me estrangulam, apenas por amor,
Se alguma vez um inocente homem matei,
Foi apenas porque vos amo tanto,
E saiba que por vos, tudo ao Império eu perdoarei!


Porque será,
Porque será que terei de estar para sempre preso,
Ao macabro chorão com perfume a maracujá,
Porque será que sempre que vos vejo,
Penso que saí de mais uma patifaria ileso?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O passeio com a flor de macieira


Verão de 1915
Era a terceira vez que ela estava com ele, e Kazuhiro não se decidia em dizê-lo. Gostava muito daquela rapariga humana com antepassados da família von Zaubermann. Os Von Zaubermann eram uma das famílias Alemãs mais influentes da Bellanária. Eram fidalgos, mas fidalgos a sério, com coroa e tudo! A rapariga entrara suavemente no carro dele e o jovem ficou desde logo excitado. No entanto, o seu semblante calmo não o traiu. Era uma situação já de si um pouco embaraçosa: um homem mais velho, uma jovem donzela de dezassete anos, Austríaca, com cabelos cor de trigo e uns lindos olhos cor de avelã. Ele sentiu que ela também estava nervosa, e por isso não deixou de pôr a mão na mão dela:
- Sente-se bem, Fräulein Gretel? - Perguntou, num tom delicado e gentil. - Se quiser, posso levá-la de volta até ao baronato da sua família...
- N-n-não, eu estou bem. - A jovem corou, muito vermelha, enquanto que se habituava ao calor que emanava da mão suave e carinhosa do bruxo. - É só que é a primeira vez que tenho um encontro a sério com um homem, e ainda por cima mais velho que eu...
- Não se preocupe, é a menina que decide para onde vamos. - Disse ele com um grande sorriso, ao deixar que o carro de luxo começasse a trabalhar. - Qual é o sítio que menos conhece na Bellanária?
Gretel estava só de passagem naquele Verão. Mesmo assim, queria aproveitar para conhecer melhor os sítios mais bonitos da pátria do seu pai, que era irmão do Barão Konrad Engelbert Ichirou Von Zaubermann, filho de um Ishikawa (outra família - para além da família Murakami - muito importante de feiticeiros Japoneses). Todo o exotismo daquela ilha enorme no Atlântico fascinava-a. Sentia-se sobretudo encantada pelas paisagens verdes da Floresta de Cristal.
O filho do Duque tinha-a ido buscar na fronteira da terra de Merlonogrado com o mar, no porto onde costumavam atracar muitos navios Russos.
E qual não foi o seu espanto quando se sentou à beira de Kazuhiro naquela limusina verde-escura, que tinha uma capota de pele bem resistente cor bege que combinava muito bem com o fato ocidental verde cor de cinza que o jovem bruxo usava naquela altura. Conseguiu sentir bem de perto a água de colónia dele. Ser-se filho de um dos homens mais poderosos do Império das Ilhas Bellantes - já para não falar do Duque ser um valente militar no Japão - tivesse um pouco a ver com o estilo refinado de Kazuhiro. Ela, uma filha de um homem que tinha desistido do seu título nobre para casar com uma viúva de um compositor Vienense, jamais poderia ser considerada como uma dama da alta sociedade Bellante! O que é que ele via nela?
Repentinamente, ela sentiu uma vez mais a mão enluvada do bruxo a tocar-lhe levemente na mão.
- Está a tremer, Fräulein Gretel...o que é que se passa? - A voz melíflua e cortês de Kazuhiro sussurrou no seu Alemão com um leve sotaque Japonês, que era tão agradável para os ouvidos de Gretel como uma poesia ao pequeno-almoço, numa manhã quente de Verão.
- Eu...eu acho que sentir-me-ia muito melhor se fôssemos para a floresta.
Kazuhiro, enquanto conduzia em direcção ao sul, começou a assobiar num tom doce e quase de brincadeira, uma canção Bellante, uma melodia que tinha não só um certo encanto semelhante ao dourado sedoso do pêssego, como a beleza de um violino. Os olhos de Gretel olhavam sonhadoramente para as altas e majestosas árvores do país.
Em breve, a jovem descobriu que Kazuhiro era tão falador quanto dizia que era. Contou-lhe sobre a vila de Itshaki, que ficava a uns poucos quilómetros da fronteira do ducado. Era uma vila que ficava perto do monte Yamakutlatectli, por onde nascia o Rio Gulmin, dando um ar fresco e silencioso à estrada acidentada, desenhada como se fosse uma interminável de espirais entre as colinas da fronteira do ducado. Ali, só se escutava o cantar suave dos pássaros e o vento a murmurar por entre as ervas altas dos campos. As cerejeiras ainda estavam em flor, dando ao horizonte uma tonalidade cor de rosa, mesmo que ainda fosse meio-dia. A vila era mesmo no fundo do vale, atravessando o rio como se fosse uma cidade flutuante. Ao longe, Gretel avistou um pagode Budista que devia ter centenas de anos! Era uma torre que apesar de ser velha, ainda se mantinha de pé. O rio murmurava uma antiga canção de um idioma desconhecido e exótico aos ouvidos da jovem rapariga Austríaca, e, quando Kazuhiro parou o carro, ela reparou que este não se atreveu a passar pela ponte de madeira para Itshaki.
- É uma ponte muito antiga, e o rio aqui é forte. - Ajudou-a a sair do carro com uma mão, enquanto que pegava na espada embainhada e a punha de novo a tiracolo na cintura. - Tem a certeza que fica bem com esses botins? O caminho até ao monte ainda é um pouco acidentado, não é?
Kazuhiro era um homem muito amável, mas ele estava sempre a fazer perguntas. Fazia com que ela se perguntasse a si própria se ele tivesse sido mesmo educado numa cidade Alemã. Porém, o certo é que ao ver o quão alto o monte era, Gretel ficou um pouco amedrontada com a sua saia longa e comprida.
Ele começou a tirar o fato e de um momento para o outro, já estava com uma túnica da mesma cor verde-escura e húmida, mas que o fazia mais masculino. Só aí é que ela reparou que ele estava a usar umas sandálias de madeira.
Esboçou um leve sorriso enquanto lhe dava a mão. Disse que este sítio era o preferido dele quando era um rapaz.
- O meu pai levava-me para aqui quando queria que treinássemos a sós. Isto em pleno Inverno, consegue imaginar o monte todo coberto de neve?
- Como nas montanhas em Viena? Sim. - Respondeu a jovem de longos cabelos louros, ao ajeitar o longo vestido cor de cereja.
Ao ouvir o nome da cidade de onde Gretel era, o jovem bruxo ficou um pouco surpreso.
- É de Viena? Que coincidência... Eu gostaria muito de ir até lá! Deve ser uma cidade lindíssima...
Ela sorriu meigamente, tão doce quanto uma amora acabada de apanhar. Não sabía o que havia de dizer. O sotaque crioulo daquele jovem homem era como um acorde desconhecido de um violino, suave e romântico que se espalhava no ar como uma fragrância floral, vindo ter às orelhas da jovem Gretel, acariciando-a suavemente.
Chegando à brisa quente da vila, ela reparou como todas as pessoas olhavam-na de soslaio, desconfiadas. Talvez porque a maior parte deles apenas tinham vistos pessoas de cabelos louros há centenas de anos, e essas últimas pessoas quase tinham destruído a vila de Itshaki. Estou a falar da invasão de Itshaki que tinha causado, há uma centena de anos atrás, um grande número de mortes, não só do lado dos Japoneses, como também dos Russos. Embora fosse difícil que o mais comum dos Humanos chegasse aos setenta anos naquela altura, os habitantes daquela vila ainda se lembravam do que tinha acontecido.
Obviamente, Gretel não tinha culpa nenhuma disso, mas as mulheres não deixavam de cochichar entre si quando ela passava de mão dada com o jovem filho varão do Duque Von Tifon.
Mas ela não ligou muito a isso. Sentia-se segura perto daquele homem atlético e alto.
Como se o seu longo cabelo de ouro fosse uma extensão dos campos de trigo lá no vale, Gretel tocava com as suas avelãs - incrustadas como jóias no rosto de anjo - a montanha, com as maçãs do rosto coradas.
Kazuhiro pensou que ela se assemelhava a uma flor de macieira, mais do que nunca, com o vestido cor das rosas, e o cabelo e a pele eram como a própria maçã - deliciosos e apetitosos, enquanto que ela se agasalhava com o lenço da cor das açucenas.
Ela acompanhava-o o melhor que podia nos seus botins, delicadamente, sempre com uma pose de senhora, enquanto o bruxo lhe contava mais sobre a vila de Itshaki.
- Dizem que ainda se consegue ouvir o trote dos cavalos dos já mortos senhores da Magia Negra, no topo do monte, em noites de Verão como a próxima. O brilho metálico das espadas a se encontrarem com os sabres dos guerreiros Russos, os tambores da Guerra Russo-Japonesa parecem ecoar perto das rochas no caminho para o topo deste monte... Mas é claro, a senhora não acredita em fantasmas, pois não? - Perguntou o feiticeiro Japonês enquanto a ajudava a subir o primeiro degrau ressequido pelo tempo.
Gretel estremeceu. Tinha sido educada num meio muito marcado por aquilo que é sagrado e católico, e raramente gostava de ouvir histórias macabras sobre sítios onde as corujas crocitavam e onde os morcegos tinham os seus ninhos.
Abanou fortemente a cabeça.
- Claro que não, credo! Se acreditasse, como é que acha que ficaria se visse o seu pai, mein Herr?
Para sua grande surpresa, Kazuhiro soltou uma grande e compreensível gargalhada, um pouco embaraçado.
- Pois, lá isso é verdade.
Não pensaram muito nisso, ao subirem as intermináveis escadas de pedra do monte de quatrocentos e cinquenta metros de altura.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O falcão branco...

Para marcar o fim de mais um ano - que só espero que se prolongue por muito mais tempo - do meu blogue, decidi contar-vos - eu Tifongirl - como é o filho do Duque Adrian Demetrius von Tifon (o Duque é o avô da Jessica) , agora que já não o vejo mais como um personagem demasiado inútil para se ter perdido na selva africana em 1929 - coisa que por acaso, até aconteceu.

Ludwig Johann von Tifon- era assim que se chamava na altura em que pensei nele, naquele Verão de 2007 - era um "homem muito dado a festas e importantíssimo na Bellanária por causa do seu negócio de têxteis".

Acho que Ludwig seria o típico Alemão por excelência, cara redonda, o tom de voz era untuoso, rápido mas solene. Cabelo escasso e quase branco, um bigode louro a pender-lhe dos lábios, sempre molhados pela cerveja. Um pequeno, mas bonacheirão sorriso. Um gigante encorpado, que ainda tinha um pouco de gordura na barriga.

Nunca falei muito nele durante estes anos todos porque sempre pensei que fosse um personagem demasiado aborrecido para se falar - aliás, de camelos já estamos fartos, se é que me entendem!

Quando passei a incluir personagens Japonesas - para aí em 2008 - comecei a ver que o estereótipo é um pau de dois bicos para o escritor. Em 2010, a Lisa Kallerud (aquela amiga minha Norueguesa) reparou como Katharina - a irmã de "Ludwig" era o estereótipo da mulher Barbie, da mulher superficial que a sociedade consumista ocidental originou no pós-guerra. O que é um pouco ridículo, pois Katharina gasta demasiado numa época em que supostamente (nas primeiras décadas do século vinte) não se devia gastar muito. Acho que foi este contraste hilariante com os outros Von Tifon que cativou a minha amiga a achá-la (à Katharina, a mãe da Jessica, tão cómica). A partir de aí, foi um saltinho para que os filhos do Duque - que, como já disse em 2008, é um homem muito severo - fossem exactamente o contrário do que ele é, pelo menos na personalidade!

E a partir destas ideias - e de muitas mais - Charlotte e Katharina tornaram-se hoje em dia em das muitas personagens que dão cor ao Château von Tifon.

Em relação a Ludwig, foi preciso um raio de inspiração - e o facto de que outras personagens começaram a surgir (incluindo a mulher dele) - e muita, muita, muita pesquisa sobre actores, personalidades interessantes para descobrir o primeiro filho do Duque: Kazuhiro von Tifon. Só há poucos meses é que mudei o nome dele.

Ludwig emagreceu, tornou-se um pouco mais esbelto e elegante, o aspecto mudou de um Europeu para um eurasiático com cabelos negros e lindos olhos azuis rasgados e barba feita. Não acho que seja assim tão alto quanto o pai, mas que o Kazuhiro é alto, é. Tem um ar afável e sorridente, muito simpático.

Não é que eu tenha vista visto, mas se o visse, talvez os três sinais de nascença nas palmas das mãos e na coxa direita denunciassem - isto se estivesse nu - a família a quem pertence. Mas talvez o verbo pertencer seja demasiado forte para um homem que normalmente passa o tempo ou agarrado ao seu bloco de notas, ou atraído por um possível local onde se possa inspirar. Teria uma voz clara, nem muito grave, nem muito aguda. Ao contrário do pai, o nariz não é adunco, mas sim fino e recto. Atlético, possivelmente pelo facto de praticar o manejo da espada Japonesa e artes marciais - se bem que reluctantemente e mais por causa do pai do que por sua própria vontade - Kazuhiro tem aquele sorriso que qualquer homem nobre teria: o de um cavalheiro. Parece ter uma espécie de distinção que faz com que as pessoas adivinhem logo que é uma pessoa de boas famílias.

Fala fluentemente Inglês, Japonês, Bellante Nortenho, e Russo. O Alemão que ele fala é um crioulo do Bellante (língua que de si já é uma mistura de outras línguas, incluindo o Nahuatl dos Aztecas), Japonês e Alemão - o famoso sotaque da Cidade Perdida. É um homem das artes, especialmente da pintura e do desenho. Vejo-o perfeitamente, introspectivo, em frente dos jardins do palácio da sua família, mais claramente a olhar para as açucenas, para os jasmins e para as rosas - brancas e harmoniosas, deitado na relva, simplesmente satisfeito com a alegria de traçar com a mão caracteres Japoneses o nome da mulher que ama no céu...mesmo que tenha quarenta e tal anos!

Apesar de tudo isso, ele é um homem forte cuja cicatriz na bochecha direita é a de um dardo envenenado com a substância tóxica de uma rã sul-americana. Dá-me arrepios só de pensar que tipo de combate terá sido esse em que ele ganhou aquela cicatriz!

Pelo que vos contei, já devem ter-se apercebido que ele é muito dado a viagens, mesmo que essas mesmas viagens acabem em sarilhos! Artista, excêntrico - como a maior parte dos seus antepassados - Kazuhiro deve ser o tipo de homem que gosta de conversar com toda a gente. Podia ir para uma rua perfeitamente inacessível à maior parte dos pensadores e homens que gostam de ficar sozinhos com a sua arte, como também pode perder-se nas horas ao observar o mar.

Não se acha um génio, apenas pensa, e desenha aquilo que vê e que capta com os seus cinco sentidos, que de si, já são muito apurados. Tem um bom humour espantoso, calmo, mas também bem-disposto, com um sorriso bem posto, um bom dia sempre refinado e educado, nem muito espalhafatoso, nem frio demais.

Às senhoras, cumprimenta com um beijo na palma da mão, e aos homens com um aperto de mão suave e delicado. Tanto gosta de ouvir música clássica como jazz...também gosta da música tradicional do país natal da sua avó, embora as notas convencionais dos instrumentos Japoneses o deprimem. Prefere a cama de rede às camas normais.

Devora livros como quem está ansioso para ler - e para fazer uma teoricamente construída crítica - sobre uma nova visão do mundo.

Que mais ele quereria descobrir na obscura Bellanária da Segunda Guerra Mundial ...? Um homem que passaria assim tanto tempo no estrangeiro (e que nada sabe sobre a situação entre o Japão e a grande Ilha Bellante) seria capaz de escolher entre o seu dever e o amor que sentía por aqueles que mantiveram a sua alma como uma pura e desprovida de malícia?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A Vida de uma Caixa de flores de Miosótis


Era uma caixa igual a todas as outras. Ninguém sabia como nem porquê que é ela, uma caixa tão singela, tinha vindo parar às mãos de um antigo coleccionador. E não digo que ela não gostasse. Talvez fosse por que ele a olhava com tanta curiosidade, que chegava a ser aflitivo. A caixa era feita de porcelana e das melhores! No entanto, só tinha custado ao homem uma moeda de cobre, que nessa altura era muito pouco para um feiticeiro como ele. A chuva caía, caía, enquanto a caixa, muda - tal como todos os objectos - era observada pelos olhos claros do seu novo dono.
Tinha uma certa graça, olhar para aquelas florzinhas cor de cobalto cujo pólen tinha sido pintado com a cor doce do mel. Apenas tinha sido moldada assim: com a forma de uma típica caixa de jóias, com folhas da cor da oliveira e miosótis a decorar uma caixa que para além do fio de ouro, não tinha lá muito de valioso. Tinha medo de se partir, porque era como uma mulher jovem e delicada. Havia uma espécie de finura no seu comportamento, sempre quieto e silencioso. Quem quer que a tivesse feito, devia ter sido com muito amor! Quando se abria, era como se houvesse um chilrear alegre quando alguém lhe tirava a tampa.
E de facto, a sua história é ainda mais curiosa quando contada, assim, a meio da noite, quando a chuva respinga nas vidraças das janelas. Estava um pouco gasta, mas não era por isso que não era bonita. Gostava de ser assim - simples, como se acabasse de ter chegado da furnaça onde a forma do vidro se torna tão rígido quanto (perdoa-me a expressão) o peito de uma mulher desenvolvida. Oh, como os Humanos outrora lhe tinham dado valor....tinham-lhe chamado preciosidade, relíquia, tesouro...Naquele momento, ao ser observada pelo dono, era só uma caixa. Portanto, achou que não tinha nada a perder a ser vendida a um feiticeiro de um estatuto tão alto como aquele bruxo. Ela já devia ter mais de cem anos, e já tinha estado em casa de muita gente. E por isso mesmo, era humilde. Já tinha experiência suficiente para saber que jamais podia sonhar tão alto como aquilo.
Enquanto o homem olhava para ela, ela também ficava curiosa. Quem seria ele? Parecia ser um homem de bem, de modos que não ficou amedrontada. Tinham-se passado dez anos dez anos depois da guerra dos Japoneses contra os Russos, e depois de tantas pilhagens, assaltos à mão armada, violações, gritos estridentes de mulheres aterrorizadas, bebés a chorarem pelas mães, a caixa sentia-se bem por ter um pouco de paz. Viva da costa, ela estava ali, ao perto de um armário de madeira de cerejeira Japonesa e de um vaso do Sul Bellante.
O bruxo chamava-se Alexei e tocava muito bem um instrumento ao qual ele chamava de alaúde. Ou pelo menos era isso o que ela apanhasse, não fosse ela porcelana feita à maneira Portuguesa. Enfim, aquela simplicidade intrigava-o bastante. Embora ela não fosse de marca, parecia ter sido feita com todo o esmero de quem é apaixonado pelo trabalho, pincelando as florezinhas, aquelas adoráveis e graciosas miosótis, com todo o cuidado e talento.
Aquela problemática guerra tinha-o feito num Kolmanatry. Mesmo assim, dinheiro não lhe faltava, e isso via-se nos seus cabelos cor de prata, fios que nem seda. Os seus olhos azuis cor de safira olhavam, como se estivessem a examinar um complicado cálculo matemático, ou uma tese qualquer de Descartes, a caixa de porcelana. E aquele objecto, que era tão simples, no entanto, tão belo, não deixava de o impressionar.
Para ela, ela estava muito bem assim. Não precisava de enfeites nenhuns nem de restauro ao mais infimo pormenor. Por isso mesmo ela ficava pasmada com tamanha curiosidade! Que teria ela de tão especial? Ela, cujo fio de ouro era uma mera camada de óleo, não achava em si digna de tanto olhar e de tanto cismo filosófico. E quem não diz que ela era merecedora de tanto elogio e cumprimento? Só acho que, por debaixo de tamanha admiração havia aquele bichinho que todos os génios - sejam eles filósofos, artistas ou artífices - têm. Era como diz o famoso provérbio: "Na necessidade prova-se a amizade..." Neste caso, foi muito mais do que uma necessidade, foi aquele tipo de encontro fortuito que só se encontra nos contos de fadas.
Mas isto, isto aconteceu assim mesmo: com a chuva a cair nas janelas do apartamento do velho e experiente Kolmanatry, e ele a ver a bonita caixa de miosótis Portuguesa. Era um desejo de querer saber de onde é que ela vinha e porquê é que era assim...tão bonita, e tão frágil na sua maneira de ser.
Dela, vinha um ligeiro perfume a baunilha. Imaginem um velho, muito velho, que, ou por uma ligeira brisa de inspiração, ou porque não mais nada que fazer, decidiu moldar em porcelana, uma caixa com a forma de uma fechadura com seis cantos, rectangular e engraçada. E com esta forma, ele pincelou uns miosótis graciosos, mas simples no seu desenho. Uma fita de ouro na tampa completava os lados amarelos, verdes e cobalto.
Parecia ter sido feita para crianças, embora não houvesse muito segredo nisso. E Alexei, que para além de filósofo e de artista, conhecia muito os vidraceiros, sentiu um pouco de nostalgia ao acariciar a caixa de porcelana com as mãos enrugadas.
- De todos os objectos que estão aqui, és o que mais me fascina. Porque serás assim? - Perguntou ele, no seu sotaque eslavo.
A caixa não respondeu, mas via-se perfeitamente que tinha corado, num gesto puramente de quem ficava muito admirado de tal louvor. O velho armário de cerejeira Japonês quase parecia ficar um pouco incomodado. Aquela caixa, tão colorida, não era feita da mesma matéria prima que a sua, e guardava coisas muito mais femininas do que aqueles que ele guardava. Contrastava profundamente com a sua velha cor desgastada e preta. No seu interior, ele ocultava antigas espadas, espólios de guerra que Alexei tinha decidido mexer desde que esta terminara.
O vaso do Sul bellante, por seu lado, tinha sido pintado com um enorme jaguar preto, e era feito de argila da cor do sangue. Tinha mais de trezentos anos. De toda a mobília com quem a pequena caixa se dava, era ele quem ela mais respeitava. E apesar de se conhecerem há muito pouco, ela gostava muito dele.
Perto do apartamento de Alexei, havia um entulho de folhas, quase gastas por causa do vento que prenunciava o Inverno, dançava ao som das mariposas que eram as donzelas que passavam, de longos cabelos dourados, na rua onde o filósofo vivia. Que pequeno delírio tinha feito o velho artista a ter escolhido, de todos os objectos que estavam naquela feira humilde e sem graça, a ela a quem - depois da guerra - nunca ninguém tinha reparado...?
Os olhos dele floriram, encantados com a prenda que tinha oferecido a si mesmo.
- Vou-te deixar aqui. Tenho de ir dormir...mas não tenhas medo, porque de manhã, eu volto.
E ele deixou-a ali, enquanto deixava que o novo e matemático relógio Russo continuasse a soar a meia-noite, num som cristalino, mas ominoso. A sala tornou-se escura, e, enquanto a fragrância de baunilha se dissipava suavemente do fino tapete cor de sangue, a caixa estremeceu, assustada. Afinal de contas, era a primeira noite que passava naquela casa estranha e desconhecida.
Não se sabe lá muito bem como é que ela lá se acostumou àquele velho apartamento do sábio tocador de alaúde. Mas a verdade é que sempre que a luz do sol irradiava da grande e única janela rectangular da sala de estar, ela já sabia que havia um pouco mais do que a escuridão a meio da noite. Mesmo antes de ir para o trabalho, o talentoso músico dedilhava no seu antigo instrumento vindo das planícies Russas, e, com aquele instrumento, a caixa conseguia ver perfeitamente os prados Alentejanos de Portugal que há tanto tempo foram uma paisagem, do fundo da janela pequenina do Artífice.
Ali, no apartamento de Alexei, ela apenas conseguia inalar o seu próprio perfume de baunilha. Havia também um baú onde o ancião guardava algumas coisas. E esse, quase nunca falava. Mas tãopouco ela se importava. Afinal de contas, ela era uma caixinha com flores de miosótis. E coisas, feitas para serem postas em quartos de senhoras finas, quase nunca se davam com mobília tão pesada! Uma secretária de madeira áspera, mas resistente, onde um candeeiro com um chapéu verde-escuro olhava sempre, servia de confidente, pois era aí onde Alexei sempre escrevía. Todos estes - e muitos mais - objectos a Caixa tinha conhecido. E no fundo, gostava muito deles, até daqueles os que nunca lhe tinham dito "bom dia, menina". Ela era feliz, porque o velho Alexei dedicava-lhe um grande amor nostálgico por ela.
Ele dizia-lhe - a partir dessa mesma manhã - que ela lhe lembrava da mulher, que o acariava nas horas distantes da sua juventude. Era com aquele perfume de baunilha que ele arranjava inspiração para escrever cartas aos seus velhos e leais amigos de São Petersburgo. Afinal de contas, ele era um homem bondoso! Embora a Caixa nunca conseguisse ver lá muito daquilo que ele escrevia, ela sabia que havia sempre um leve sorriso quando ele dedicava e lia alto:
- Para a minha querida filha Nina.
Ora, se as caixas pudessem sorrir, ela fá-lo-ia com prazer. Mas ela não passava de uma pequena caixa suave de porcelana.
Um dia - sabe-se lá porquê - mas algum dos criados ao serviço de Alexei encontrou a pequena caixa, toda rachada, partida no chão. O criado não disse palavra, nem sequer deitou a caixa para o lixo. Dizem que a inveja toma todas as formas para ferir. E quem sabe, se com uma corrente de ar, na surdina da noite, o armário não teria tido a tentação de se mexer o suficiente para que a caixinha caisse no chão...
Ao saber de tudo isto, Alexei tomou as peças que ainda restavam da donzela morta, e com um carinho de pai, ele declarou:
- A beleza está nas coisas mais insignificantes, até mesmo quando ninguém repara...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Trovi de um criminoso

Respirei o perfume de baunilha,
Que havia nos teus olhos azuis de menina,
E senti que tinha caminhado uma milha,
Quando apenas tinha esvaziado a piscina
Dos meus desejos pelo mundo!

És o meu esconderijo,
Nos teus lábios, mergulho fundo,
Bem fundo, até que finjo
Que este sofrimento não existe,
E passo passo do real ao sonho num segundo!


Oh bela visão inatingível,
Oh sentimento ardente e profundo,
Será possível,
Que faças do meu coração emperdenido e perfurado,
Uma fonte de paixão e de pecado?


Verão que está sempre comigo,
Fazes-me sentir amado,
Embora não mereça, embora seja teu inimigo,
Neste sonho romântico e imperfeito, decorado,
Com belas flores de cerejeira a cairem no chão molhado!


Dás-me tristeza e dás-me malícia,
E eu pago-te na mesma moeda, sou um templo abandonado,
E com a minha perícia,
Transformo essa insegura tristeza,
Numa excitante, embriagante certeza!

Estava a pensar nos vários casos que tive com homens - não eram mais velhos que eu, mas sim rapazes, mesmo assim, aprendi muito com eles. Pensei que podia escrever uma narrativa (uma história sobre a Jessica ou outro conto sobre a Bellanária), mas não consigo estar inspirada em outra coisa senão no amor impossível - ou melhor, o desejo carnal de um homem por uma mulher muito mais delicada e bondosa que ele...Ai, que esteréotipado e feminista! Bom, algumas vezes, eu sou demasiado feminista, mas só queria escrever um bocado para desanuviar.

Pronto... saiu isto...